O texto abaixo é a homenagem (atrasada) do site a todas as mães pelo seu dia. É de autoria de minha grande amiga Luisa Pinheiro, de Fortaleza-CE.
O ano era 1997. Era uma sexta feira, 09 de maio, como hoje, por volta das 4 da tarde. Eu estava com medo sim, não nego. E feliz também. Mas nem imaginava que, naquele momento, eu estava ganhando o maior presente que jamais poderia imaginar receber.
Foram meses de chorinho de madrugada, noites passadas em claro, correria pra dar conta da faculdade e não descuidar do papel de mãe. Pediatra, fraldas, mamadeiras, sopinhas, resfriados, brinquedinhos, balbucia, anda, cai, "acode o menino!!", primeiro dia na escolinha, primeira festinha de dia das mães, primeiro contato com os livros..
"Mama, mama, olha, mama: L com I, LI, X com O, XO, LI-XO".
E eu ali, na fila do supermercado me derretendo todinha, que eu nem imaginava do que aquela coisinha de só 4 anos de idade já era capaz.
Por dois anos inteirinhos, depois da formatura, sangrei por dentro ao ter que deixar a minha melhor qualidade aqui em Fortaleza enquanto eu ia pro interior justificar os 4 anos de faculdade e ganhar algum pra terminar de criar o menino.
Veio, então, a época da residência. Eu estava em Fortaleza de novo. Mas isso não significava, necessariamente, que eu estava em casa.
"Mama, a senhora vai sair de novo? A senhora está dormindo pouco, mama, eu fico preocupado..".
7 anos, e ele preocupado com meu sono. Do mesmo modo, nunca me pediu pra comprar coisas que ele imaginava estar além de minhas posses. De mim, até hoje, só me requisitou companheirismo e confiança. E algumas respostas, que ninguém é de ferro.
"Mama, quando eu nasci o médico me tirou da sua barriga, não foi? Mas mama, como foi que eu entrei lá, hein?"
"Mama, o que é 'ética'?"
"Mama, quem mora na Islândia fala o que, hein?"
"Mama, pq Deus é infinito?"
É, desde os tempos mais remotos ele deu pra me chamar por "mama". E me fazer umas perguntas difíceis. E, na mesma medida em que ele vai descobrindo que a mama está longe de ter todas as respostas, eu vou descobrindo o rapazinho sábio e de coração admirável que ele vem se tornando.
"- Mama, eu tenho uma notícia ótima pra te dar: amanhã vai ter uma peça lá na escola sobre os sentimentos, e adivinha quem vai fazer o personagem principal? - Não sei.. (fazendo cara de bobinha ;) ) - Eu mama! Eu vou fazer o amor! . . . (Depois da peça) - E aí, Lu, como foi a peça? - Legal, mama. O sentimento mais bobo era a Vaidade. Disse que não podia ajudar o amor porque ele poderia sujar o seu barquinho. Essa vaidade é muito boba né mama? Onde é que já se viu ter alguma poeirinha no amor?"
"-Eita, Lu, esse goleiro da Itália é bom né? -Pudera, né, mama, está com 3 anos que ele se reveza com o Tcheck e o [esqueci o nome do outro agora], no ranking de melhores goleiros do mundo da FIFA."
".. e aí, Lu, o Alaska foi vendido aos EUA por uns 7 milhões de dólares. -Eita, foi uma pechincha! Saiu mais barato do que quando o Brasil foi comprar o Acre da Bolívia!!"
"-Puxa, o rapazinho está limpando o vidro do carro com tanto gosto.. Pena que eu realmente não tenho nenhum dinheirinho e nenhuma moedinha pra dar pra ele.. =( -Mama, mama.. eu tenho aquele real que eu encontrei no bolso da minha bermuda, lembra? -Mas Lu, vc não ia juntar ele pra comprar aquela revista que vc quer? Vc tem certeza que prefere dar o seu real pra ele? -Claro, mama. É mais importante pra ele do que pra mim."
Gosta de rock. A seleção musical dele no meu Media Player me mata de orgulho. Das professoras, antes de ontem, ouvi o seguinte: "ah, então a senhora é a mãe daquele rapazinho questionador, não é? Olhe, ele não aceita nada que não tenha uma justificativa. A inteligência e a perspicácia dele chamam atenção. E ele é adorável. E também é o defensor dos fracos e dos oprimidos. Não pode ver ninguém que ele ache que está sendo injustiçado, que ele toma logo as dores".
Numa relação em que não se usa máscaras, à medida que ele vai crescendo em estatura e em sabedoria, vai descobrindo que a mama não é infalível, está a anos-luz da perfeição e é cheia de defeitos, contradições e idiossincrasias.
E daí?
E daí o mais importante de tudo:
"Tchau, mama. Eu te amo. Deus te abençoe, viu?" 10 anos. E todos os dias ele vem me acordar com um beijinho e se despede de mim com essas palavras aí de cima. Eu, de minha parte, sigo amando esse rapazinho ainda mais do que quando o beijei pela primeira vez, ainda sujinho de sangue e berrando a plenos pulmões. |