Já faz algum tempo o Brasil e o mundo foram bombardeados pela morte do repórter da Globo Tim Lopes, morto covardemente por traficantes do Rio de Janeiro, ao investigar o uso de drogas e sexo nos bailes funks das favelas cariocas.
Porém o que mais me chocou em toda essa história, por incrível que pareça, não foi propriamente a morte do jornalista. É claro que isso nos choca, mas não foi o que mais me impressionou. O fato mais marcante, ao meu ver, passou quase que de relance em uma das reportagens: vários corpos de pessoas executadas pelo tráfico estavam enterradas sob um “campinho de futebol” onde crianças passavam dias brincando... brincando sobre corpos sem vida!
Alie estavam elas, crianças cheias de vida... com a vida e a bola sob seus olhos e com a morte e a violência sob seus pés. Brincavam inocentes (algumas nem tanto... já perderam sua inocência nas mãos bandidas), correndo pra lá e pra cá... cheias de vida... cheias de esperança... sobre aqueles cuja esperança já não mais existia. Às vezes penso que somos quais essas crianças, mas sem sua inocência peculiar. Passamos nossa vida brincando, nesse imenso jogo humano, e pior, brincando sobre corpos que nós mesmos matamos. Quando passo pelas ruas, e vejo alguém a mendigar um pedaço de pão qualquer para sua sobrevivência, estou como que passando... continuando meu jogo sobre corpos sem vida. Quando passo num beco onde prostitutas se oferecem por preços dos mais variados... lá estou eu... correndo em meu campinho da vida, procurando marcar meus gols, enquanto corpos sem vida passam ao meu lado.... há movimento neles, mas não há vida!!
Ossos secos!! Isso lhe lembra alguma coisa ???
Deus nos pergunta: Poderão viver esses ossos ?? Nossa resposta deve ser a mesma: Senhor, Tu sabes!!! E a reposta de Deus à nossa resposta também será a mesma: Profetiza!!! Profetiza a esses ossos!!! Ainda há esperança sim... ossos secos ainda podem ter vida quando nas mãos daquele que é Senhor da vida... e da morte!
Corpos sem vida precisam de fôlego... cheiro... precisam de carne... alimento... corpos sem vida, é claro, precisam de VIDA!!! Mas como terão se aqueles que têm a vida não lhes proclama isso?? “Como ouvirão se não há quem pregue?”
Pregar aqui é muito mais que simplesmente falar... é crer!! É viver a mensagem!! Gosto quando Tiago diz: “Tendes vivido regaladamente sobre a terra, tendes vivido nos prazeres; tendes engordado o vosso coração (...) tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência” (Tiago 5.6) e ainda “Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.” (Tiago 2.15-17)
Isso me faz lembrar uma música do João Alexandre, que diz: “.. enquanto se canta e se dança de olhos fechados, tem gente morrendo de fome por todos os lados...” Nossa responsabilidade é mais do que falar, é fazer!!
Mas também devemos denunciar aos governos corruptos, que roubam dos pobres, que deixam ricos mais ricos e pobres mais pobres, que nos roubam a dignidade humana. Devemos denunciar a mídia que nos faz ver homens e mulheres como simples objetos sexuais, valendo tanto quanto as cervejas e outros produtos que querem vender...
Devemos denunciar os pastores (sim!! Principalmente estes) que só apascentam a si mesmos. Mercenários que fazem da fé alheia sua forma covarde de sobrevivência... brincam sobre corpos...roubam-lhes a vida!!! Gente preocupada em erguer “estranhas catedrais”.. vendo gente morrer literalmente sob suas construções megalomaníacas. Gente que quer ser grande, que quer perpetuar o nome, mas não quer ver perpetuar o homem.
Devemos, enfim, estender as mãos em adoração sim, mas tendo-as antes estendido em ação, em amor ao próximo... chegando-nos a Deus trazendo mãos calejadas, mas felizes, sabendo que fizemos aquilo que está ao nosso alcance... e que Ele fará o resto.
Pesa sobre nós essa responsabilidade... profetizar ao vale de ossos secos... mas estarmos prontos a alimentar todo exército que se levantará... assim não andaremos mais quais crianças... brincando sobre corpos sem vida!!
Com muito carinho,
José Barbosa Junior
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