Meu Malvado Favorito

Não! O título realmente não é nada original! É o título de uma animação do ano de 2010. Ah! E eu não vi o desenho. Só uso o título porque ele cai bem naquilo que pretendo pensar neste breve comentário.

Alguns amigos me pediram para comentar o tal “Festival Promessas”, evento “gospel” produzido por nada menos que a Vênus Platinada, a Rede Globo de Televisão. Ora, comentar o tal festival não é nada mais que comentar a nossa triste realidade. Daí, me aventuro a ampliar o tema ao invés de diminuí-lo a um evento único. Há muito mais do que só o “Promessas”. Há uma mentalidade em pleno desenvolvimento e que atinge não só os neopentecostais, como pensamos, mas até mesmo aqueles que se arvoram defensores de um “evangelho sério”.

Por muito tempo pensei que os evangélicos consideravam como inimigos todos aqueles que lhe fossem contrários ou que lhes expusessem ao ridículo, como muitas mídias fazem (e muitas vezes merecemos a ridicularização!). Hoje percebo meu equívoco. Não! Nossos inimigos não eram os que nos negavam, expunham ao ridículo ou tripudiavam sobre nós. Na verdade, o que a prática evangélica hoje parece confirmar é que inimigo é aquele que não me dá espaço. Ponto. Se me der espaço para “pregar o evangelho” logo passa a ser uma “benção”, um “agir de Deus”, um “ato da soberania de Deus, que usa até o diabo quando quer.”

Aliás, abro um parêntese aqui. A ideia do “diabo de Deus” (Martinho Lutero dizia que “o diabo é o diabo de Deus”) como manifestação da “soberania” de Deus é totalmente desprezível. (Há até aqueles que dizem que o diabo é como um pitbull, acorrentado sob os comandos de Deus, e Deus, de vez em quando solta um pouco a corrente para executar seu “juízo”, mas basta chamar que ele – o diabo – vem quietinho e fica preso novamente). Um Deus que precisa de um diabo para fazer o mal, além de ser mau, é covarde! Fecho parêntese.

Curioso nisso tudo (no caso, o “Promessas”) é exatamente a “glorificação a Deus” pelo fato de “a Globo ter se curvado” ao senhorio de Jesus. Bobagem! Nem a Globo, nem a Som Livre estão interessados em sinalizar o Reino de Deus. E não os culpo. São empresas, e como tais, visam o lucro. Nosso povo dá lucro, porque qualquer coisa que você ponha um rótulo de “gospel”, vende. Um pequeno passeio pela rua Conde de Sarzedas, no centro de São Paulo comprova isso. Pegue por exemplo um sapo de pelúcia. Coloque nele uma “camiseta” com uma frase “bíblica” e você terá um “sapo gospel”, um “sapo ungido”. Vende! E vende muito!

Nisso tudo então fica clara a relação de “meu malvado favorito”, ou seja, não importa o quanto o veículo seja claramente alienante e mentiroso, desde o momento em que ele abre as portas para mim e a minha “mensagem”, ele se torna “uma benção”, um “instrumento de Deus”. Essa relação se dá não só na mídia, mas com pastores, políticos, empresários, etc… A partir do momento que há o investimento (leia-se DINHEIRO) no “meu ministério” sou capaz de declarar “benção” quem quer que seja.

Se um político reconhecidamente corrupto faz uma generosa doação para alguma igreja ou ministério, certamente esse político será apresentado e ovacionado pelo “povo de Deus” como abençoado e instrumento de Deus. Se um pastor, por mais que pregue coisas estranhas e sua igreja esteja envolvida em “ministérios apostólicos”, investe (mais uma vez leia-se GRANA) no meu ministério, ele logo será um abençoado, um “homem de Deus”, “resposta de oração”.

Repito: toda essa mentalidade não é privilégio de neopentecostais. Há muito “defensor da sã doutrina” (essa expressão me causa arrepios!) vendido a ministérios que, caso não houvesse o investimento financeiro, seriam facilmente condenados como “inimigos do evangelho”. Não se enganem, neopentecostais e fundamentalistas têm muito mais em comum do que imaginamos!

Por fim, não me causa espanto esse frenesi gospel em busca do poder, da aceitação midiática, dos grandes públicos e massas… Isso não é nada para quem já abandonou há tempos a simplicidade do Jesus de Nazaré, homem de dores, que nunca se encantou com multidões o seguindo, que preferia a companhia de uns poucos amigos à celebração idiotizada e alienadora da massa que procurava sinais e prodígios. Quem vive esse evangelho de “eventos” e não o evangelho que se faz vida no chão da existência vai continuar por aí, marchando pra “Jesus”, comprando nas expocristãs, e vivendo de promessas, literalmente!

Misericórdia!

José Barbosa Junior, em 14/12/2011

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12 Respostas para Meu Malvado Favorito

  1. Davi Amaro disse:

    Sempre lembro-me de estudiosos que problematizaram uma questão e nos disseram: Se virem pra achar as respostas. Descortinaram e deixaram a parede por pintar. Pergunto: Se sua crítica é somente o discurso de chamar de bênçãos o que quer que seja à troco de dinheiro, mudo o foco e pergunto: Tem lado bom nessa visibilidade? O fim justifica o meio? Você acha que alguém sério poderá utilizar este espaço(Rede g.) e fazer bom uso dele? Um abraço mano.

    • junior disse:

      Caro Davi,
      O problema é achar que esse “interesse” é benção de Deus. Não é! É comércio… isso vende! Estamos sendo usados.
      Totalmente diferente é quando um cristão faz algo bom e é RECONHECIDO por isso, seja por quais mídias forem. Neste caso, é bom… mas é raro acontecer!

  2. Mano querido, era praticamente tudo o que eu também tinha a dizer mas não o sabia transcrever em palavras, parabéns pelo talento e coragem de usa-las de forma tão ácida, sincera e Amorosa (quer reconheçam isso ou não, eu sim).

    Abraços Sinceros em Cristo!

  3. Na verdade o movimento de Jesus continua na escuridão, caminhando na solitude, tal qual foi os caminhos do mestre, atingindo uns poucos com a voz suave, porém firme da profecia, não da que prevê o futuro, mas que denuncia o presente.

    Graças a Deus por tu teres sido meu mentor, senão poderia eu ser mais um desses que acham que tudo isso não passa da vontade de Deus em pronunciar seu evangelho.

  4. Leonardo Silva disse:

    Verdade clara, expressa em palavras afiadas e precisas. Fico feliz por saber que faço parte de uma minoria lúcida. Estamos lutando a cada dia para desfazer em nós os enganos deste sistema contrário aos valores eternos de Deus, expressos na humilde simplicidade de Deus encarnado, que era homem sem parecer nem formosura, não tinha onde reclinar a cabeça, e tinha um grupo minúsculo de seguidores. As franquias evangélicas são negócios enormes, que usam a temática bíblica como cenário para seus “apóstolos” auto-gerados. “Vede retrum, satanas!”

  5. Grande Junior!
    Disse muito e mais um pouco, irmão!
    Parabéns pelo site querido.

  6. É Junior, cada dia mais vamos ficando sozinhos na caminhada…

  7. Marcelo Miguel disse:

    É mano…. pior que essa relação com o “malvado favorito” é de longa data… Ciro, o grande conquistador persa também foi chamado de “messias”… o tempo passa, o tempo voa… e tudo continua numa boa. Um abraço

  8. Eduardo Rocha disse:

    Sim Junior, concordo plenamente com vc, inclusive tenho discutido isso com alguns, ainda podemos acrescentar a tudo isso a questão da concorrência entre Globo e Record. Sabe, eu não sei onde esse circo gospel vai parar…
    Um abraço meu irmão!

  9. TAGI disse:

    A paz do Senhor Jesus a todos, o assunto é intrigante, quando deixamos os ensinos de Jesus ao lado, em um dos seus conselhos e nos diz que não importa nem de que forma estejam pregando, o que importa é que preguem, seja por dinheiro, fama ou orgulho, e se tiverem pessoas que estejam pregando por amor, não julgueis e não serão julgados!. Bom dia a todos. “texto fora de contexto é pretexto para heresia”.

  10. Grande Júnior, vou repetir o que um amigo me disse uma vez: “O problema é quando o evento vira, é vento.”

    Tenho dito que o nosso povo é muito ingênuo, eu diria até negligente.

    Por isso concordo com seu texto.
    http://apalavrahoje.blogspot.com/2011/12/replico-globo-gospel-nada-ver.html

  11. Alann Marino disse:

    Boa Juninho!!! belo texto amigo – concordo contigo!

    abração!

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